rumo à Antártica

Vencedoras do concurso "O Brasil na Antártica" relatam suas experiências na viagem rumo à Antártica.


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parceiros de Antártica

Logo que ficamos sozinhas no voo em direção ao Rio de Janeiro, nos primeiros minutos da viagem, a Tamara comentou: “será que os outros ganhadores são legais?”. A resposta veio no primeiro momento todos juntos (já relatado aqui). E durante toda a viagem a afinidade só fez aumentar, ao ponto de até o Tenente Rodrigo comentar que o grupo tão bacana foi um toque a mais na jornada.

Somos bastante diferentes um do outro, mas funcionamos bem juntos, o que realmente tornou a viagem ainda mais especial. E só faz aumentar a vontade da possibilidade de retorno à Antártica virar realidade. Nos posts anteriores contei um pouco sobre algumas personagens marcantes ao longo de nossa empreitada, agora é hora de homenagear um pouco nossos queridos parceiros de emoções Antárticas.

Grupo completo junto ao Hércules e à equipe da FAB na saída do Rio de Janeiro rumo a Pelotas.

Grupo completo junto ao Hércules e à equipe da FAB na saída do Rio de Janeiro rumo a Pelotas.

1- dupla pernambucana

Valdemir e Alvaro, sempre empunhando a bandeira pernambucana, desta feita no barco rumo à Marambaia.

Valdemir e Alvaro, sempre empunhando a bandeira pernambucana, desta feita no barco rumo à Marambaia.

O Valdemir era o mais calado frente às câmeras do Fantástico, mas se mostrava divertido e companheiro longe delas. E o Alvaro era o rei da foto do grupo – muitas das fotos desse post aconteceram graças à sua insistência em capturar alguns momentos marcantes. Sem contar que o repertório de histórias de Alvaro é tão infinito quanto hilário! A dupla de Saloá não perdia uma chance de esticar a bonita bandeira pernambucana por onde passasse. Mais sobre a dupla nesta notícia direto do agreste pernambucano e nesta outra no portal da Marinha.

Grupo todo na pista de pouso e decolagem do porta-aviões São Paulo.

Grupo todo na pista de pouso e decolagem do porta-aviões São Paulo.

2- dupla gaúcha

Elias e Rafael em frente ao submarino Tapajó

Elias e Rafael em frente ao submarino Tapajó

Elias era o mais jovem do grupo e foi quem sofreu comigo no exercício do bote. Rafael é professor de física e tem uma ótimo canal de videoaulas no You Tube: a Torre. Juntos, seguiram a missão de registrar tudo o que vivenciaram na viagem, empunhando sempre câmeras, microfone, tripé e cia. Algumas imagens do Rafael ficaram tão bacanas que até o pessoal do Fantástico pediu cópia para usar na reportagem final. Mais sobre a dupla nesta matéria do G1.

Nós todos junto com o contra-almirante Silva Rodrigues, idealizador do concurso, e da equipe do Fantástico que nos acompanhou boa parte da viagem.

Nós todos junto com o contra-almirante Silva Rodrigues, idealizador do concurso, e da equipe do Fantástico, que nos acompanhou boa parte da viagem.

3- dupla de Barbacena

Mantovani e Vanessa com o Brigadeiro Ismailov.

Mantovani e Vanessa com o Brigadeiro Ismailov.

Mantovani como nome de guerra e Matheus para os colegas de viagem – o aluno da escola de cadetes da aeronáutica é dedicado em tempo integral, realmente envolvido com seu objetivo de se tornar um piloto de caça na FAB. É também ótima pessoa para se conversar sobre assuntos diversos; apesar da pouca idade, tem muita cultura geral. Um pouco mais sobre ele nessa matéria no G1. E a Vanessa ficou sendo nossa consultora particular para assuntos militares, pacientemente explicando tudo sobre os postos, a hierarquia, os uniformes e cia. É surpreendente ver o quanto ela adora esse universo!

Todos nós de partida da Antártica. Foi pouco, mas fomos!

Todos nós de partida da Antártica. Foi pouco, mas fomos!

 


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personagens (2): Rodrigo, Haynee e Lúcio

Tenente Rodrigo

Todos com cara de sono na saída do CEFAN em direção ao aeoporto na manhã do último dia da jornada.

Todos com cara de sono na saída do CEFAN em direção ao aeroporto na manhã do último dia da jornada.

O Primeiro-Tenente Rodrigo de Almeida Rosa nos acompanhou em todas as instâncias da viagem à Antártica, desde a divulgação do resultado do concurso por meio de e-mails formais da Secirm, até o gelado teleférico de Punta Arenas, passando por uma visita nublada ao Cristo Redentor. Seu bom humor é contagiante e acho que nunca vamos esquecer aquela risada gostosa que se amplia até os ombros.

Nos contou durante a viagem que foi o redator do regulamento do concurso “O Brasil na Antártica” e também que participou da comissão julgadora que selecionou os vídeos vencedores.

Sempre disposto a nos esclarecer sobre o funcionamento da Marinha e das organizações militares em geral, ainda nos ensinou um pouco do linguajar típico que usam. Alguns exemplos do que aprendemos: 1- “safo” = tranquilo, resolvido, esperto. Ex.: “não se preocupe com isso, tá safo.”; “ele é safo”. 2- “faina” = trabalho, obrigação. Ex.: “tô aqui com essa faina para resolver”; “a faina de hoje é dura”. 3- “bizu” = dica. Ex.: “qual o bizu para se safar dessa faina?”.

 

Comandante Haynee

Comandante Haynee ajudando a Tamara a vestir o mustang no primeiro dia do trienamento pré-antártico.

Comandante Haynee ajudando a Tamara a vestir o mustang durante treinamento pré-antártico.

A Comandante Haynee foi das poucas mulheres na Marinha do Brasil que tivemos chance de conhecer. Muito simpática, já iniciou conversa logo no ônibus que nos levou do Rio de Janeiro à Itacuruçá, de onde embarcamos para a Marambaia. Nos acompanhou durante todo o treinamento pré-antártico por lá, durante o qual palestrou sobre o funcionamento das estações de apoio antártico (Esantar) – vide post anterior.

Ser mulher na Marinha não deve ser fácil. As missões por vezes são longas e deixar a filhinha pequena deve ser separação sempre doída. E embora tenhamos presenciado uma relação igualitária entre homens e mulheres da Marinha nas atividades de que participamos e verificado que mulheres chegam a ocupar postos mais elevados, fato é que elas ainda não podem desempenhar qualquer tipo de atividade na Marinha. Por exemplo, as mulheres não podem embarcar. Assim, geralmente atuam em atividades mais administrativas, como muitas das que caracterizam a Secirm.

 

Comandante Lúcio

Comandante Lúcio explicando para a Tamara o percurso que faríamos até a Marambaia no primeiro dia do treinamento pré-antártico.

Comandante Lúcio explicando para a Tamara o percurso até a Marambaia no primeiro dia do treinamento pré-antártico.

Marco Vinícius Lúcio, o comandante Lúcio, acompanhou nossos treinamentos no CADIM durante a presença da equipe do Fantástico por lá. Ele atua na área de comunicação social da Marinha e então foi designado para dar apoio ao trabalho jornalístico.

Durante a ida à Marambaia, contou-nos que já esteve diversas vezes por lá e usou o mapa da embarcação para explicar o trajeto que faríamos até lá e para indicar que a Marambaia não é propriamente uma ilha.

Depois, não lembro bem como a conversa chegou nisso, acabou contando de sua experiência de escrever livros infanto-juvenis. Um de seus livros, o “Cisne Branco”, é sobre a Marinha, mas há outros já publicados, como o “As horas”, que ensina a ler as horas em relógio analógico, e o “Contando o hino”, que explica estrofe por estrofe o significado dos versos do hino nacional. Foi muito interessante acompanhar sua explicação sobre como teve as ideias para os livros a partir de conversas com seus próprios filhos!


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personagens (1): Brandão, William e Christino

Comandante Brandão

O Comandante Brandão dando esxplicações aos alunos vencedores do concurso ao lado de fragatas ancoradas no Complexo Naval Mocanguê

O Comandante Brandão dando explicações aos alunos vencedores do concurso ao lado de fragatas ancoradas no Complexo Naval Mocanguê durante nossa vista à Fragata Rademaker.

Mario Luis Machado Brandão, o Comandante Brandão, é capitão-de-fragata. Ele foi nosso primeiro contato nos preparativos para a viagem nos dando as boas vindas para a empreitada que estava prestes a se iniciar. Foi ele quem coordenou a missão de nos propiciar o treinamento pré-antártico e, posteriormente, nos levar à Antártica. Também nos conduziu na visita aos meios navais, inclusive contando que havia servido por cinco anos na fragata que visitamos.

Durante o treinamento pré-antártico no Cadim, palestrou sobre as características do continente antártico e sobre a estrutura da estação brasileira (EACF). Sua última missão por lá foi das mais difíceis para quem está ligado ao Proantar já há algum tempo: ele comandou a operação de desmonte da estação após o incêndio que a destruiu em 2012. O desafio era grande: a remoção total dos destroços (seguindo as determinações do Tratado Antártico), o empacotamento para transporte ao Brasil via navio e a instalação dos Módulos Antárticos Emergenciais (MAEs) em cima do antigo heliporto.

A Operação Antártica XXXI foi a maior operação logística realizada pelo governo brasileiro na Antártica. Envolveu cinco navios e só pode ser iniciada após a remoção de 60 mil metros cúbicos de neve. O Comandante Brandão nos contou com orgulho que o trabalho foi elogiado pela comitiva internacional de inspeção composta por ingleses, holandeses e espanhóis (pelo Tratado Antártico, um país pode fiscalizar a atuação de outro no continente austral a fim de verificar se está seguindo o acordado no tratado. No caso em que havia grande risco de contaminação ambiental, a inspeção era até esperada).

Para quem já se envolveu em missões desse porte de complexidade, levar alunos do ensino médio à Antártica é, no mínimo, bastante diferente. E o comandante pode se orgulhar de ter cumprido mais uma missão com sucesso!

Sub-oficial William

William comigo no barco que nos trouxe de volta ao Rio de Janeiro após o trienamento pré-antártico na Marambaia.

William comigo no barco que nos trouxe de volta ao Rio de Janeiro após o treinamento pré-antártico na Marambaia.

William Souza, o sub William, é uma pessoa adorável. Conversamos pouco entre uma atividade e outra no Cadim, mas foi o suficiente para passar a admirá-lo. Em paralelo ao trabalho na Marinha (de que gosta muito, somente não encarando os submarinos), está cursando a pós-graduação na Faculdade de Educação da UERJ. Contou-nos que decidiu prestar vestibular aos 37 anos de idade após quase 20 anos sem estudar. E, apesar de já ter mudado de faculdade algumas vezes por conta das missões que recebe em locais distintos do país, agora está firme na finalização de seu projeto de pesquisa sobre o uso de softwares livres na educação de jovens e adultos (EJA).

Foi muito bacana trocar algumas breves ideias sobre educação com ele e saber mais sobre um problema que, embora óbvio, ainda não apresenta solução pela falta de material adequado. Em sua pesquisa, observou que um dos grandes problemas da EJA é não contemplar as experiências de vida dos alunos e isso se reflete nas queixas dos alunos em relação aos materiais utilizados. Por exemplo, grande parte dos aplicativos e outros materiais desenvolvidos para alfabetização são pensados para crianças e para quem já tem certa idade é desestimulante aprender usando isso. Assim, William está à caça de bons aplicativos em português que possam ser disseminados nas diversas atividades de EJA.

Sub-oficial Christino

O sub Christino dando instruções para a Tamara e o Rafael realizarem a atividade do bote no segundo dia do treinamento pré-antártico.

O sub Christino dando instruções para a Tamara e o Rafael realizarem a atividade do bote no segundo dia do treinamento pré-antártico.

Christino foi quem nos conduziu na parte do treinamento pré-antártico que versava sobre locomoção em embarcações miúdas. Mas foi na noite anterior que conheci o mergulhador Alexandre da Silva Christino no hotel de trânsito de oficiais na Ilha da Marambaia (HT). Ele adora conversar e contar histórias de sua invernada na Antártica. Quem me conhece vai ter dificuldade em acreditar que praticamente não abri a boca durante quase duas horas de conversa, tão interessantes e intensos eram seus relatos. Deixou-me cheia de vontade de estar na Antártica!

Ele parecia ter adivinhado que sou uma bióloga especialmente apaixonada por mamíferos marinhos, pois me contou muitas histórias de avistagens de focas e baleias, dando especial ênfase à foca-leopardo, temida pelos marinheiros principalmente durante os deslocamentos por bote.

Christino adora fotografar e filmar. Contou já ter brigado com alguns colegas de invernada que o questionavam quando saía de câmera em punho para, pela enésima vez, registrar o pôr-do-sol ou algum agrupamento de pinguins. E divertiu-se contando que muitas vezes programava com alguns colegas montagens fotográficas brincalhonas, como a vez em que colocaram uma das mesas de trabalho do lado de fora da estação e então ficaram somente de camiseta e calça leve simulando estarem trabalhando no frio tão tranquilamente quanto se estivessem no calor do Rio de Janeiro.

O inverno é intenso no continente antártico e o isolamento por longo tempo em relação a familiares e amigos não é situação fácil. Por mais que parte do tempo seja ocupada com o trabalho de manutenção da estação, manter o humor e a criatividade são fundamentais. E Christino parece não ter problema algum com isso!


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agradecimento

Na véspera do retorno ao Brasil, entregamos ao Comandante Brandão uma carta de agradecimento assinada por todas as duplas de vencedores do concurso. Gostaríamos que as palavras ali contidas se estendessem a todos que propiciaram essa empreitada e que nos acompanharam e atenderam com tanta dedicação garantindo que recebêssemos muitos prêmios. Algumas dessas pessoas aparecerão nos próximos posts (série “personagens”) – é uma forma de alongarmos o agradecimento e também de mostrar àqueles que estão acompanhando nossa viagem um pouco do cotidiano dos militares que pudemos conhecer. A seguir, o texto da carta:

À Marinha do Brasil,

Voltemos alguns meses no tempo, quando cada um nós recém havia descoberto que a Marinha do Brasil havia lançado um concurso para levar estudantes e seus professores para a Antártica e garanto que nenhum de nós, ao decidir encarar o desafio de participar, seria capaz de imaginar o resultado de tal decisão. Vencer o concurso “O Brasil na Antártica” era um sonho tão distante quanto o próprio continente gelado. Hoje, com esse impensado sonho realizado, escrevemos para agradecer a quem nos proporcionou tudo isso.

Mas o que pode ser dito para as pessoas que mobilizaram um dos mais belos e complexos projetos que este país realiza para que nossos pés tocassem o solo antártico e os nossos olhos vissem a beleza que poucos têm a chance ver? Como agradecer a quem que nos colocou no coração do PROANTAR e mesmo nas horas mais críticas não mediu esforços para que o sonho de ir ao continente branco se tornasse realidade? A todos que se dedicaram a essa empreitada, fica o nosso eterno muito obrigado. A Marinha do Brasil mudou para sempre a vida de oito brasileiros. Tenham a certeza que o que aprendemos será divulgado a todos os cantos onde formos. Ao conhecer todo o trabalho e logística que a Marinha emprega no programa antártico sentimos um orgulho do Brasil, que todo o brasileiro deve sentir também.

A Marinha do Brasil não nos ofertou simplesmente um prêmio, ela nos acolheu de braços abertos e envolveu de coração um número incontável de pessoas, que se dedicaram com prazer e alegria em nos proporcionar uma experiência marcante, transformadora e eterna. Que o nosso agradecimento chegue a todos que se envolveram conosco, pois sabemos que precisaram abrir mão de outros afazeres ou até mesmo do seu tempo pessoal para nos atender. Que saibam que, embora o objetivo principal do concurso fosse nos levar para a Antártica, todos foram parte essencial desta experiência, pois nos trouxeram muito aprendizado, bons momentos, sorrisos e o que há de mais bonito na Marinha, que são as pessoas que nela estão.

Que fique claro que, apesar da frustração de termos passado tão pouco tempo na Antártica, compreendemos perfeitamente quais foram as circunstâncias que impediram o cumprimento do cronograma original e fomos testemunhas de todos os esforços empregados frente a cada novo imprevisto. Sentimos como se o objetivo principal dessa missão fosse nos colocar na Antártica. Talvez não exista lugar no planeta tão capaz como o continente gelado de ignorar as vontades do homem e de ensinar o quanto somos pequenos frente a natureza e de que é preciso agir com humildade e sabedoria para dar um passo atrás e esperar uma nova oportunidade. A presença do Brasil na Antártica já tem mais de 30 anos e o que vimos durante essas duas semanas nos dá a certeza de que a bandeira brasileira ainda vai tremular por mais muitos anos no continente, alimentando a nossa esperança de uma dia voltar a Antártica, conhecer a Estação Comandante Ferraz e lá permanecer por mais tempo.

Do fundo de nossos corações, muito obrigado pela mais fantástica experiência de nossas vidas.

Vencedores do concurso “O Brasil na Antártica”.

Elias Martini e Rafael Irigoyen, Tamara Klink e Tatiana Nahas, Deangelles Fiorentino e Waldemir José, Matheus Pinho Mantovani e Vanessa Ortolan


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duas horas de Antártica

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O plano original era pousarmos na base Frei – o Proantar tem uma parceria intensa com o Chile nesse sentido – e então seguirmos de navio para a base brasileira, onde passaríamos dois dias. Ao chegarmos em Punta Arenas já sabíamos que esse plano teria de ser alterado: o inverno chegou um pouco mais cedo à Antártica esse ano e parte do mar já estava começando a congelar, então os navios precisariam voltar mais cedo, trazendo de volta ao Brasil os pesquisadores que estavam na estação e seu material de coleta. Assim, passaríamos apenas uma noite na base brasileira levados por um dos navios a partir da base chilena.

Porém, como não conseguimos pousar na Antártica no primeiro dia que tentamos (uma pena, o tempo estava perfeito, o que é raro, mas tivemos problemas com o Hércules), os navios brasileiros que estavam só nos esperando para essa travessia iniciaram seu retorno ao Brasil, pois não poderiam arriscar esperar nossa segunda tentativa de pouso.

Fomos bem sucedidos em nossa segunda tentativa (o pessoal do sexto voo da mesma operação demorou seis dias para conseguir chegar à Antártica!), mas não pudemos ficar em solo antártico por mais de duas horas, pois esse é o tempo máximo para segurança do Hércules. Mais que isso, o combustível congela…

Tivemos então nosso breve momento de alegria intensa e logo retornamos a Punta Arenas. No dia seguinte, o pessoal da FAB voltou à Antártica para treinar pouso e decolagem, faz parte do processo de formação dos pilotos que atuam nessa operação. Não conseguiram realizar os treinos por conta do mau tempo e tivemos que ficar um dia mais em Punta Arenas. Por sorte, conseguiram na segunda tentativa, senão só poderiam realizar os treinos no próximo verão e havia piloto ali por um isso de se formar.

Ficar na Antártica por menos de duas horas foi doído. Mas talvez ainda mais frustrante tenha sido estar em Punta Arenas sabendo que o Hércules estava novamente na Antártica. Que vontade de ir junto! Mas isso não é permitido: quando os pilotos vão para realizar treinamento, somente eles seguem. Nem a tripulação de bordo do Hércules, que serve uns lanches caprichados, vai. Isso porque a aeronave não pousa de fato, somente arremete. Até pedimos para ir junto e ficar na base chilena durante o tempo de ensaio dos pilotos, mas nos explicaram que não poderiam arriscar nos deixar em solo sem a garantia de que depois poderiam pousar. Como o tempo muda muito rapidamente na Antártica, a possibilidade disso ocorrer é grande. Assim, ficamos tão perto e tão longe de um pouco mais do continente gelado…

Durante o retorno da primeira frustrada tentativa de pouso, vim conversando com o Paulo, que integra uma equipe que está realizando um documentário (“Asas Antárticas”) sobre o trabalho de apoio da FAB ao Proantar. Ele me contou que a equipe já contabilizava 82 horas de Hércules e somente 5 de Antártica e nenhuma de base brasileira (EACF) no continente austral. Se formos comparar, até que tivemos sorte, pois contabilizamos cerca de 30 horas de Hércules, quase 2 horas de Antártica e os alunos vencedores do concurso ainda tiveram 15 minutos de EACF…

Se formos ainda considerar que muitos membros da Marinha sonham em conhecer o continente geado e isso é privilégio para poucos marinheiros que passam por uma seleção bastante rigorosa e que pessoas de alta patente e amplo tempo de serviço, como o Almirante Zamith e o Brigadeiro Ismailov (mais informações na série “personagens” que logo iniciaremos aqui no blog), conheceram a Antártica pela primeira vez e também por duas horas junto conosco… demos sorte mesmo!

Essa experiência nos mostrou na prática o quão complexas são as operações do Proantar e quantas atividades são realizadas a cada ida ao continente gelado! Também, deixou claro aquilo que navegadores e voadores experientes em Antártica sabem bem: na Antártica, quem manda é o tempo, quem manda é a Antártica. As tecnologias todas que desenvolvemos nos ajudam muito a estarmos por lá, mas não se sobrepõem ao determinado pela natureza. Esse equilíbrio entre desafio e respeito, entre resiliência e ambição, torna ainda mais interessante e desejosa a ida ao continente gelado!

Existe a possibilidade de regressarmos à Antártica no próximo verão. Como não foi possível conhecer a EACF (os alunos estiveram lá por apenas 15 minutos levados por helicóptero a partir da base chilena e os professores nem isso), a Marinha se comprometeu a tentar nos incluir em um dos voos da operação XXXIII do Proantar para que possamos conhecer a base brasileira e também passar algum tempo na Antártica, fazer algumas das trilhas, conhecer os laboratórios de pesquisa nos navios e tudo o mais que estava nos planos originais. Porém, todo o comando da operação irá mudar a partir do meio do ano, então fica pendente saber como o novo comando vai considerar isso.

Ou seja, o sonho ainda não acabou. Estamos na torcida para que o próximo comando se lembre de nós e nos convide a realizar o sonho de forma mais completa, enfim conhecendo a estação brasileira, acompanhando os trabalhos de pesquisa, caminhando na neve, vendo pinguins e focas… Torçam por nós!


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visita aos meios navais 3: Navio-aeródromo São Paulo

Um navio-aeródromo é um porta-aviões. O São Paulo é o único da América Latina. O maior navio da frota brasileira tem 266 metros de comprimento, 51.2 metros de largura e pode transportar 2300 tripulantes. É o extremo oposto do submarino, onde tudo é compacto.

Almoçamos na praça de armas com o comandante e depois circulamos por parte dos 16 andares do imenso navio aprendendo um pouco sobre sua operação e também algumas curiosidades. Por exemplo: em caso de operação que envolva o São Paulo, ele será o navio capitâneo, ou seja, aquele que terá a bordo o almirante que estiver comandando a operação.

O São Paulo foi comprado da França em 2000, quando esse país fez a troca por um porta-aviões nuclear (e então voltamos ao ponto do nuclear versus diesel, já discutido no post anterior). Pode consumir até 300 mil litros de diesel por dia! O diesel é usado para aquecer uma caldeira e o vapor d’água liberado é que movimenta os diversos mecanismos do navio.

Como tudo nesse navio é superlativo, o melhor jeito de compartilhar um pouco de nossas impressões é mostrando alguns detalhes dos 16 andares que o compõem. Não sem antes destacar que no final da visita fomos agradavelmente surpreendidos com um presente: cada um de nós recebeu uma foto do grupo na pista de pouso e o grupo recebeu um DVD com registros da nossa visita e alguns vídeos da operação regular do navio. O setor de comunicações do São Paulo acompanha a grandiosidade do restante da embarcação!

visão a partir do periscópio

visão a partir do periscópio

na cabine de comando

equipamento na cabine de comando

no timão

no timão

a partir da pista de pouso e decolagem, vista da Ilha da Enxada, onde se formam os oficiais da Marinha

a partir da pista de pouso e decolagem, vista da Ilha da Enxada, onde se formam os oficiais da Marinha

visão a partir da cabine de comando

visão a partir da cabine de comando

do outro lado da pista de pouso e decolagem

do outro lado da pista de pouso e decolagem

hangar

hangar

hangar

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visão da cabine de comando


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visita aos meios navais 2: Submarino Tapajó

Retornamos ao Rio de Janeiro para visitar o Arsenal de Marinha, que fica situado em uma ilha próxima à Praça Mauá. Lá, primeiramente visitamos o terceiro submarino construído no Brasil, o Tapajó.

Fiquei curiosa a respeito da nomeação das embarcações e então soube que isso é uma decisão do almirantado e refere-se a uma localização geográfica (como é o caso do submarino Tapajó, que se refere ao rio), a alguma figura importante da marinha (como é o caso da fragata Rademaker, que se refere ao almirante de mesmo nome que foi vice do presidente Costa e Silva), ou a algo marcante na história da Marinha (como é o caso do porta-aviões São Paulo, tema do próximo post, que foi nomeado em homenagem ao encouraçado São Paulo).
Para um leigo, o que mais impressiona num submarino é a grande compactação. Cada centímetro da embarcação está ocupado com algo. O teto é baixo e os corredores são estreitos. Há tubos, válvulas e interruptores por toda parte. Os locais de refeições seguem o mesmo esquema de aperto e as camas empilhadas lembram os beliches dos sete anões da Branca de Neve.

tapajo-comando tapajo-aperto

A principal função de um submarino é o ataque torpédico – o Tapajó possui 3 torpedos. Como atividades secundárias, também pode atuar no lançamento de minas ou na investigação via fotos periscópicas.

A propulsão do Tapajó é diesel-elétrica, ou seja, o diesel é usado para alimentar baterias que acionam a parte elétrica. Há um sistema chamado snorkel que, como o do equipamento de mergulho, é um longo tubo que recebe ar; nesse caso, o ar é para combustão do motor. Quando precisa reabastecer de ar, o submarino fica a uma profundidade de 15 m, suficiente para essa entrada de ar. E a descarga desse ar embaixo d’água é por difusores, garantindo a não detecção do submarino por formação de bolhas.

Passar despercebido é fundamental para um submarino. Curiosamente, essa parece ser a única desvantagem dos submarinos nucleares, já que o reator emite certo ruído. Mas foram bem destacadas na nossa visita as vantagens de um submarino nuclear: como é o reator que fornece energia para a movimentação, a autonomia é muito maior. Na verdade, o único fator limitante será a capacidade da tripulação de permanecer submersa por longo tempo – em países que usam submarinos nucleares costuma-se ficar por volta de 3 meses. Além disso, a propulsão do motor no submarino nuclear é muito mais forte, propiciando viagem a longas distâncias, que seria o ideal para um país de dimensões continentais como o Brasil, segundo nos relataram. Sem contar a não-emissão de gás carbônico para a atmosfera.