rumo à Antártica

Vencedoras do concurso "O Brasil na Antártica" relatam suas experiências na viagem rumo à Antártica.

personagens (3): Zamith, Ismailov e Lucena

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O retorno à labuta intensa após a estadia antártica não tem permitido atualizar o blog com mais frequência, apesar da presente postagem e as seguintes serem tão importantes quanto as anteriores. A seguir, um pouco sobre três marcantes personagens que conhecemos na segunda metade da viagem, já a bordo do Hércules.

Almirante Zamith

O almirante Zamith gentilmente quis tirar uma foto com cada dupla de premiados na nossa última parada (Esantar-Rio Grande) antes do final da viagem.

O almirante Zamith gentilmente quis tirar uma foto com cada dupla de premiados na nossa última parada (Esantar – Rio Grande) antes do final da viagem.

De todas as pessoas interessantes que conhecemos, Wagner Lopes de Moraes Zamith, o vice-almirante Zamith, foi a que mais me marcou. Sua gentileza e seu prazer pela troca de experiências são admiráveis, tornando qualquer dedo de prosa com ele um grande privilégio. Ele é diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia Industrial, integrante da Secretaria de Produtos de Defesa dentro do organograma do Ministério da Defesa, mais acabei sabendo pouco sobre seu trabalho nesse órgão. Seus relatos mais vívidos foram sobre outra experiência recente: ele comandou a força de paz da ONU no Líbano entre 2012 e 2013. Foi apenas a segunda vez que o comando de uma força de paz da ONU não esteve nas mãos de algum membro da OTAN. Zamith voltou de lá fascinado com a experiência cultural a que acabou submetido e me deixou fascinada por tabela a partir de seus relatos.

Ele também conhece muito sobre histórias de naufrágios e/ou navegações heroicas, como é o caso da histórica expedição de Schakleton (mais aqui e aqui), e acabou compartilhando alguns documentários sobre isso que havia trazido em seu computador para assistir durante as longas horas de Hércules. Foi mesmo um privilégio desfrutar de sua companhia no que foi também a sua primeira vez na Antártica.

Brigadeiro Ismailov

Junto com o Brigadeiro Ismailov esperando o transporte que nos levaria a conhecer o PAMA.

Junto com o Brigadeiro Ismailov prestes a conhecer o Parque de Material Aeronáutico do Galeão (PAMA).

A presença do Brigadeiro Ismailov foi fundamental em alguns momentos mais tensos da viagem (se é que se pode falar em tensão em uma experiência tão bacana como a que vivenciamos). Primeiro foi na saída do Rio de Janeiro: a espera para os reparos no Hércules foi compensada, como já contamos, com uma visita ao PAMA, em que pudemos conhecer parte da estrutura de reparos de aeronaves, bem como alguns tipos destas. Tudo graças a um improviso do Brigadeiro.

Depois houve uma “conversa motivacional” encabeçada por ele no aeroporto de Punta Arenas instantes antes de finalmente desembarcarmos na Antártica. A decepção pela impossibilidade de pousarmos na Antártica no dia anterior era grande. Até porque não era certeza que conseguiríamos nesse dia (nunca é, ainda mais quando se fala do continente gelado). E já sabíamos que a estadia não se estenderia por mais que apenas duas horas. O Brigadeiro Ismailov estava disposto a não embarcar no Hércules com esse desânimo como bagagem e nos reuniu num canto do saguão do aeroporto. Foi quando contou que há 38 anos desejava ir para a Antártica e que se não o conseguisse agora provavelmente não iria nunca, pois já vai entrar para a reserva. Se preocupou em descrever um pouco da complexidade técnica envolvida em um pouso na Antártica – por exemplo, explicou que é preciso aceleração diferencial nos quatro motores da aeronave para pouso no gelo. E acabou nos enchendo de ânimo para a nova tentativa.

No dia seguinte, quando ficamos um pouco à toa em Punta Arenas, nos recomendou fortemente um chocolate especial que apreciava muito. Já havia feito os cálculos de qual a melhor relação custo-benefício em termos do tamanho da barra e indicou o melhor local para a compra. Foi um tanto inusitado aquele oficial, que num primeiro momento parecia meio sisudo, se sair com essa. E não é que ele tinha razão? O chocolate é mesmo uma delícia!

Major Lucena

Major Lucena explicando para a Tamara o of´cio de um engenheiro especializado em ensaios em voo.

Major Lucena explicando para a Tamara o ofício de um engenheiro especializado em ensaios em voo.

O Major Lucena conseguiu a proeza de tornar curta uma viagem de mais de dez horas no Hércules. A conversa se iniciou por conta das câmeras que vinha instalando na cabine dos pilotos desde o início da viagem e acompanhando ao vivo a partir de seu computador. Ele nos contou que o objetivo era propiciar alguns cálculos de frenagem, aceleração e outros parâmetros em momentos críticos do voo: pouso e decolagem. Hoje, os pilotos voam, assessorados pelo engenheiro de bordo, com os cálculos feitos nos anos 1950, época de fabricação do Hércules. Os cálculos atuais permitem tornar o apoio da FAB ao Proantar ainda mais preciso, uma vez que podem aprimorar a operação da aeronave especialmente em casos de pousos mais complicados, como o que ocorre na Antártica.

Mais que isso, os cálculos são extrapolados ainda para uma nova aeronave de carga em desenvolvimento, o KC-390. Trata-se de um avião a jato (o Hércules é a hélice) que o Brasil está desenvolvendo e que será o primeiro avião de grande porte no pais que poderá abastecer um caça em voo e ser reabastecido por outro similar, dando maior autonomia de voo em determinadas operações. O projeto da Embraer, realizado em em parceria com empresas de outros países que fornecem algumas peças e que deverão ser os primeiros a adquirir os aviões produzidos, tem o primeiro voo previsto para a celebração do dia do aviador ainda este ano.

O Major Lucena nos explicou ainda que há principalmente dois tipos de engenheiros envolvidos no projeto e na operação de aviões: o engenheiro de voo é especializado no tipo de avião e o engenheiro de ensaios em voo, caso do major, é generalista (só havendo diferença entre ensaio em voo em asas rotativas, vulgo helicóptero, e asas fixas, vulgo avião). Boa parte do ofício do engenheiro de ensaios em voo envolve reengenharia, ou seja, deve usar engenharia reversa para descobrir o sistema de equações aproximado que rege determinada aeronave. Essa informação pode ser usada, por exemplo, para projetar a própria aeronave. Diversos tipos de “drones” podem ser envolvidos em algumas etapas desse processo. Como exemplo, o major nos mostrou em seu celular esta TED-talk, em que o quadricóptero da demonstração recebe uma missão e a cumpre usando o que aprendeu (sim, inteligência artificial) – “isto é engenharia!”, resumiu o major.

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Autor: trnahas

Tatiana Nahas é bióloga com mestrado em Neurociências e especialização em Divulgação Científica. Seu interesse é a comunicação da ciência, tanto por meio do ensino, quanto via divulgação da ciência.

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