rumo à Antártica

Vencedoras do concurso "O Brasil na Antártica" relatam suas experiências na viagem rumo à Antártica.

duas horas de Antártica

7 Comentários

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O plano original era pousarmos na base Frei – o Proantar tem uma parceria intensa com o Chile nesse sentido – e então seguirmos de navio para a base brasileira, onde passaríamos dois dias. Ao chegarmos em Punta Arenas já sabíamos que esse plano teria de ser alterado: o inverno chegou um pouco mais cedo à Antártica esse ano e parte do mar já estava começando a congelar, então os navios precisariam voltar mais cedo, trazendo de volta ao Brasil os pesquisadores que estavam na estação e seu material de coleta. Assim, passaríamos apenas uma noite na base brasileira levados por um dos navios a partir da base chilena.

Porém, como não conseguimos pousar na Antártica no primeiro dia que tentamos (uma pena, o tempo estava perfeito, o que é raro, mas tivemos problemas com o Hércules), os navios brasileiros que estavam só nos esperando para essa travessia iniciaram seu retorno ao Brasil, pois não poderiam arriscar esperar nossa segunda tentativa de pouso.

Fomos bem sucedidos em nossa segunda tentativa (o pessoal do sexto voo da mesma operação demorou seis dias para conseguir chegar à Antártica!), mas não pudemos ficar em solo antártico por mais de duas horas, pois esse é o tempo máximo para segurança do Hércules. Mais que isso, o combustível congela…

Tivemos então nosso breve momento de alegria intensa e logo retornamos a Punta Arenas. No dia seguinte, o pessoal da FAB voltou à Antártica para treinar pouso e decolagem, faz parte do processo de formação dos pilotos que atuam nessa operação. Não conseguiram realizar os treinos por conta do mau tempo e tivemos que ficar um dia mais em Punta Arenas. Por sorte, conseguiram na segunda tentativa, senão só poderiam realizar os treinos no próximo verão e havia piloto ali por um isso de se formar.

Ficar na Antártica por menos de duas horas foi doído. Mas talvez ainda mais frustrante tenha sido estar em Punta Arenas sabendo que o Hércules estava novamente na Antártica. Que vontade de ir junto! Mas isso não é permitido: quando os pilotos vão para realizar treinamento, somente eles seguem. Nem a tripulação de bordo do Hércules, que serve uns lanches caprichados, vai. Isso porque a aeronave não pousa de fato, somente arremete. Até pedimos para ir junto e ficar na base chilena durante o tempo de ensaio dos pilotos, mas nos explicaram que não poderiam arriscar nos deixar em solo sem a garantia de que depois poderiam pousar. Como o tempo muda muito rapidamente na Antártica, a possibilidade disso ocorrer é grande. Assim, ficamos tão perto e tão longe de um pouco mais do continente gelado…

Durante o retorno da primeira frustrada tentativa de pouso, vim conversando com o Paulo, que integra uma equipe que está realizando um documentário (“Asas Antárticas”) sobre o trabalho de apoio da FAB ao Proantar. Ele me contou que a equipe já contabilizava 82 horas de Hércules e somente 5 de Antártica e nenhuma de base brasileira (EACF) no continente austral. Se formos comparar, até que tivemos sorte, pois contabilizamos cerca de 30 horas de Hércules, quase 2 horas de Antártica e os alunos vencedores do concurso ainda tiveram 15 minutos de EACF…

Se formos ainda considerar que muitos membros da Marinha sonham em conhecer o continente geado e isso é privilégio para poucos marinheiros que passam por uma seleção bastante rigorosa e que pessoas de alta patente e amplo tempo de serviço, como o Almirante Zamith e o Brigadeiro Ismailov (mais informações na série “personagens” que logo iniciaremos aqui no blog), conheceram a Antártica pela primeira vez e também por duas horas junto conosco… demos sorte mesmo!

Essa experiência nos mostrou na prática o quão complexas são as operações do Proantar e quantas atividades são realizadas a cada ida ao continente gelado! Também, deixou claro aquilo que navegadores e voadores experientes em Antártica sabem bem: na Antártica, quem manda é o tempo, quem manda é a Antártica. As tecnologias todas que desenvolvemos nos ajudam muito a estarmos por lá, mas não se sobrepõem ao determinado pela natureza. Esse equilíbrio entre desafio e respeito, entre resiliência e ambição, torna ainda mais interessante e desejosa a ida ao continente gelado!

Existe a possibilidade de regressarmos à Antártica no próximo verão. Como não foi possível conhecer a EACF (os alunos estiveram lá por apenas 15 minutos levados por helicóptero a partir da base chilena e os professores nem isso), a Marinha se comprometeu a tentar nos incluir em um dos voos da operação XXXIII do Proantar para que possamos conhecer a base brasileira e também passar algum tempo na Antártica, fazer algumas das trilhas, conhecer os laboratórios de pesquisa nos navios e tudo o mais que estava nos planos originais. Porém, todo o comando da operação irá mudar a partir do meio do ano, então fica pendente saber como o novo comando vai considerar isso.

Ou seja, o sonho ainda não acabou. Estamos na torcida para que o próximo comando se lembre de nós e nos convide a realizar o sonho de forma mais completa, enfim conhecendo a estação brasileira, acompanhando os trabalhos de pesquisa, caminhando na neve, vendo pinguins e focas… Torçam por nós!

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Autor: trnahas

Tatiana Nahas é bióloga com mestrado em Neurociências e especialização em Divulgação Científica. Seu interesse é a comunicação da ciência, tanto por meio do ensino, quanto via divulgação da ciência.

7 pensamentos sobre “duas horas de Antártica

  1. Vou criar uma torcida organizada pra vocês, queridas meninas…

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  2. Oi mana já estou na torcida…

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  3. A equipe do Fantástico que havia nos acompanhado desde o início da viagem com a intenção de fazer uma série de três episódios sobre o concurso e a ida à base brasileira, retornou ao Brasil após a primeira frustrada tentativa de pouso na Antártica. Como mesmo fôssemos bem sucedidos na segunda tentativa (e fomos – uhu!) só teríamos o pouco tempo que de fato tivemos no continente gelado, isso não seria suficiente para as gravações. Assim, a pauta por enquanto está suspensa, mas a Sônia Bridi combinou com o comando que, se o Proantar nos levar à estação no próximo verão, retomaria as gravações.

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  4. Desculpe, mas o motivo de vocês ficarem somente duas horas na Antártica não foi de o “combustível congelar”, pois na temperatura que estava no dia, -1°C, não faz com que o combustível congele.
    O motivo mais provável foi o de liberar a pista para uso da força aérea chilena ou falta de luz solar, pois nesse dia o sol se pôs em torno das 18h00.

    Caso vocês tivessem voado mais cedo, poderiam ficar muito mais tempo por lá :)

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    • Olá, João. Usei as informações que nos passaram: o Hércules nunca fica pousado mais que duas horas por conta do risco de congelamento do combustível, pelo que entendi já virou um procedimento padrão. Mas não sei qual é exatamente a temperatura e congelamento desse combustível desenvolvido pela Petrobrás especialmente para o Proantar. Sei que há outros combustíveis que apresentam maior resistência ao congelamento. É o caso, por exemplo, do combustível usado pelos EUA, até porque os aviões deles pousam bem no interior do continente, onde as temperaturas são sempre muito mais baixas.Mas se você souber algo mais sobre isso, vou adorar saber também!
      Sobre o horário de ida para lá, nesse dia fomos mais tarde porque antes não havia teto para pouso, então ficamos esperando o momento propício para ir em termos climáticos. No dia anterior fomos bem cedinho e o tempo estava ótimo, mas o problema foi de outra natureza… Enfim, cada hora uma questão mais com que lidar…

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  5. É realmente uma experiência única e inesquecível!
    Estarei torcendo para vcs retornarem!
    SandraAlmeida * Assistente Social em Missão de Apoio ao Grupo Desmonte do Arsenal de Marinha em 2012/2013* 24 horas na Antártica e lembranças para o resto da vida!

    Curtido por 1 pessoa

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