rumo à Antártica

Vencedoras do concurso "O Brasil na Antártica" relatam suas experiências na viagem rumo à Antártica.


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Antártica: 10 anos em 1

Hoje é comemorado o Dia da Antártica. Trata-se de uma celebração do Tratado Antártico, o qual, há 55 anos, definiu que o território antártico seria patrimônio da humanidade e destinado a fins científicos e pacíficos.

Para comemorar a data, relembrar o tantico que vimos do continente gelado e ficar sonhando com o que ainda poderemos ver, embora em outra parte, nada melhor do que as belíssimas imagens do recém-lançado e premiadíssimo documentário Antarctica: a year on ice. Na torcida para que seja lançado também aqui no Brasil e logo possamos acompanhar esse lindo trabalho na telona!

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características gerais da Antártica

Estamos quase chegando lá! Mas antes de colocar os pés no continente gelado, vamos fazer a lição de casa e revisar algumas informações sobre a Antártica aprendidas no treinamento e também lidas no “Manual do participante de Operações Antárticas” que recebemos.

O Continente Antártico tem aproximadamente 14 milhões de quilômetros quadrados quase totalmente recobertos de gelo. É rodeado pelo Oceano Austral, formado pelo encontro dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, e representa cerca de 10% de todos os oceanos (mais neste vídeo da Comissão Interministrial para Recursos do Mar).

O mais frio dos continentes interfere no clima de diversas regiões do globo – “é a fábrica de frentes frias”, como resumiu o Comandante Brandão em sua palestra no Treinamento Pré-Antártico. Além disso, é ali que está o maior manto de gelo do mundo, correspondendo a cerca de 90% da água doce do planeta. O continente gelado abriga ainda o arquivo da história climática do planeta, que pode ser estudada a partir da coleta de amostras de gelo com gases aprisionados.

Além das circulações atmosféricas, a Antártica controla as circulações oceânicas, de forma que os fenômenos de ressurgência que são observados, por exemplo, em Cabo Frio – RJ, decorrem de correntes marítimas frias advindas da Antártica. É ainda o continente mais alto de todos, com uma média de 2300m. Mais informações aqui.

Na vista de ontem ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, aprendemos ainda que, no período Cretáceo, a Antártica era coberta por florestas densas, inclusive com plantas tropicais. Que diferença do ambiente terrestre de hoje restrito a musgos e líquens! Isso porque a Antártica era ligada ao que hoje conhecemos por África e América de um lado e, por outro, ao que hoje conhecemos por Austrália. Estamos falando de mais de 150 milhões de anos atrás! Pouco depois, há cerca de 94 milhões de anos, a Antártica já havia se separado da África e da América, mas ainda estava parcialmente ligada à Austrália. Somente há 14 milhões de anos é que essa parte da Terra chegou à configuração que temos hoje.

Os mapas abaixo, do Paleomap Project, são os mesmos usados na exposição do museu, que citava como referência “Scotese, 2009”. No site do projeto há mais mapas e algumas informações sobre o processo de deriva continental.

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Também aprendemos na visita ao museu que alguns locais, como a Antártica e os desertos, são mais favoráveis à descoberta de meteoritos, já que as condições climáticas ajudam a preservá-los. Até meteoritos provenientes de Marte já foram encontrados por lá.

Por fim, é interessante destacar que, apesar da proteção internacional que impede a exploração direta dos recursos do continente, esse tem sofrido agressões ambientais nas últimas décadas. Como se trata de região com ecossistemas particularmente frágeis, observa-se muita susceptibilidade à destruição da Camada de Ozônio (boa notícia recente aqui ) e ao Aquecimento Global.

A presença de 176 tipos de minerais, de grandes lençóis de gás natural (e, provavelmente, petróleo) e de água acirra os interesses econômicos na região. Como explicado anteriormente, até 2048 esses recursos não podem ser explorados. Mas o que irá ocorrer após isso? Haverá uma renovação do Tratado Antártico garantindo que esse seja um continente para a ciência e para a paz?

Essas questões econômicas se juntam a outras de forma a justificar o esforço brasileiro em se manter no continente gelado. Por exemplo, há interesses políticos, como o fato de o estreito de Drake propiciar uma passagem entre os oceanos Atlântico e Pacífico, configurando uma rota alternativa de comunicação com o Oriente além do Canal do Panamá. Há também interesses militares, como o desenvolvimento da capacidade de realizar apoio logístico a grandes distâncias e de realizar operações em áreas inóspitas.

Enfim, tudo associado ao continente gelado é grandioso. Também é grande nossa ansiedade de finalmente desembarcarmos nele!


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o tratado Antártico e participação do Brasil no continente gelado

Além da preparação física para a incursão à Antártica, o Treinamento Pré-Antártico também apresentou aulas teóricas sobre a regulamentação internacional, a participação do Brasil na Antártica, cuidados médicos e segurança para deslocamentos. Eis um pouco do que aprendemos sobre os dois primeiros pontos.

O Tratado Antártico foi assinado por 12 países em 1959 após alguns deles terem requerido para si parte do território do continente. Ao entrar em vigor em 1961, o tratado garantiu que a Antártica seja um local para pesquisas científicas.

Em janeiro de 1975, o Brasil aderiu ao Tratado Antártico e passou a seguir as normas legais que devem ser respeitadas pelos países que atuam no continente: não pode haver atividade militar, a exploração econômica de recursos naturais está suspensa até 2048, não se pode deixar lixo algum na região, técnicos de um ou mais países podem inspecionar o que acontece nas demais estações para garantir a proteção ambiental do continente (e foi o que ocorreu, por exemplo, quando a estação brasileira sofreu um incêndio em 2012).

O regime jurídico se estende a outros países e admite que se tornem partes consultivas, desde que realizem atividades de pesquisas substanciais e contínuas – daí uma das preocupações do Brasil em seguir marcando sua presença no continente mesmo após o incêndio e antes da instalação da estação provisória.

Atualmente, o Tratado Antártico conta com 29 membros consultivos e mais 20 membros não consultivos. Em setembro de 1983, o Brasil foi admitido com direito a voto após ter iniciado, um ano antes, sua atuação efetiva no continente gelado a partir da criação do Proantar. Em 1986, com a operação Antártica IV, o Brasil passou a se manter 365 dias por ano na Antártica, coisa que poucos países fazem. Para isso, a Marinha recebe apoio da Força Aérea Brasileira (FAB) para transporte de equipamentos, mantimentos e pessoal.

Dos 10 voos anuais que a FAB realiza para lá, 3 deles ocorrem durante o inverno. O pessoal aqui gosta de contar histórias da precisão desses deslocamentos, como o fato de que a FAB é a única força aérea que pousa regularmente durante o inverno (os demais países o fazem somente em caso de emergência) ou que, no caso de lançamento de carga a partir do avião, até ovos chegam intactos para aqueles que estão cuidando da estação de pesquisa. Nós participaremos do último voo de verão, o sétimo voo, da operação XXXII do Proantar. Depois disso, estão programados mais três voos de inverno para lançamento de carga.

Mas a logística é ainda mais ampla, subjugada à Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Cirm). Além do apoio da FAB, há duas estações de apoio, chamadas Esantar, uma no Rio de Janeiro – RJ e outra em Rio Grande – RS. A Esantar-Rio é o local de saída dos navios e voos. Tem a função de logística da parte de abastecimento da estação, dos navios e dos voos de apoio, ou seja, planeja, coordena e executa a movimentação de cargas. A Esantar-Rio Grande cuida da parte de vestimentas e equipamentos. É para lá que iremos depois de amanhã, quando receberemos as roupas apropriadas para enfrentar o frio antártico

Para resumir, a cronologia abaixo dá uma boa ideia sobre o histórico da participação brasileira na Antártica:

 Fonte: http://jconlineblogs.ne10.uol.com.br/antartida/wp-content/themes/antartida/images/linhadotempo.jpg

Fonte: http://jconlineblogs.ne10.uol.com.br/antartida/wp-content/themes/antartida/images/linhadotempo.jpg

E este vídeo, da Comissão Interministerial para Recursos do Mar (CIRM),  é uma boa introdução ao tema, pois descreve o percurso brasileiro na Antártica desde a adesão ao Tratado Antártico, em janeiro de 1975, até a construção dos módulos provisórios da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) pós o incêndio de 2012.


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para onde vamos afinal?

Sempre que conto para um amigo ou parente sobre a viagem que estamos prestes a realizar, a pergunta surge: Antártica ou Antártida?

A página do concurso da Marinha fala o tempo todo em Antártica. Mas na do organograma do Ministério das Relações Exteriores consta a Divisão de Mar da Antártida e do Espaço dentro do Departamento de Meio Ambiente e Temas Especiais, que é uma unidade da Subsecretaria-Geral de Meio Ambiente, Energia, Ciência e Tecnologia. E então, para onde vamos afinal?

Os sites de linguistas apontam que as duas grafias são corretas. Mas até algum tempo usava-se Antártida como substantivo, o nome próprio do continente, e antártico ou antártica como adjetivo correspondente a esse continente. Ou seja, vamos para a Antártida e navegaremos por mares antárticos.

E por que houve essa mudança? Alguns defendem que trata-se de um anglicismo, já que nossas línguas irmãs usam termos parecidos com Antártida, como em italiano, em que se fala “Artartide”. Há quem diga que o termo Antártida é uma confusão com a mítica Atlântida. Outros garantem que o termo Antártica é o que contém melhor sentido etimológico, uma vez que o termo em latim antarcticus, “austral”, é derivado do grego anti + arctikós, ou seja, o que se opõe ao ártico (de Árktos, Ursa, em referência às constelações assim chamadas).

Neste texto, descobri que essa já foi uma das mais acaloradas discussões na Wikipedia para construção do verbete sobre o continente gelado – veja aqui. Mas a melhor explicação que encontrei foi no blog de uma amiga querida, a bióloga e jornalista Maria Guimarães. Seu pai foi quem propôs, em 1985, a criação da Divisão de Mar da Antártida e do Espaço, mencionada acima, a qual chefiou até 1987. Isso depois de ter sido um dos três primeiros brasileiros a pisar no solo antártico, quando participou da primeira expedição brasileira à Antártida em 1982/1983. Segundo ele, Antártida é a denominação que consta nos tratados assinados pelo Brasil e ele defende a diferenciação entre substantivo e adjetivo indicada acima.

O pai da Maria é o embaixador Luiz Filipe de Macedo Soares, recém empossado como Secretário-Geral do Organismo para a Proscrição das Armas Nucleares na América Latina e Caribe (OPANAL). Ele participou do início do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), fundado em 1982. O curioso é que o Proantar, a cargo da Marinha do Brasil, usa a denominação Antártica, inclusive para se referir aos tratados, como o Tratado da Antártica.

Ou seja, a dúvida permanece! Já temos, então, uma primeira pergunta para o Comandante Brandão, encarregado da divisão de Logística do Proantar e que irá conduzir nossa viagem. E você, tem alguma curiosidade que gostaria de satisfazer a respeito do continente gelado? Indique nos comentários que tentaremos descobrir ao longo da viagem!

Fac-simile do Tratado da Antártida, firmado em 1959 para garantir que o continente seja protegido e estudado em função dos interesses da humanidade. Registro feito durante visita à exposição Túnel da Ciência em jan/2014. Clique na imagem para vê-la aumentada.

Fac-simile do Tratado da Antártida, firmado em 1959 para garantir que o continente seja protegido e estudado em função dos interesses da humanidade. Registro feito durante visita à exposição Túnel da Ciência em jan/2014. Clique na imagem para vê-la em tamanho maior.